"The Alchemy of a changing life is the only truth"
(Rumi)

"A magia é um acto transformador e a verdadeira transformação tem lugar bem fundo nas nossas raízes."

(Teresa Moorey "A Sabedoria das Árvores")

"Desapareça o que é velho, a putrefacção e o bolor desta massa informe: venha, pois, a eterna vastidão de um espírito liberto, um ser tão livre que projecta a imagem da eterna esperança na mais pequena gota de orvalho pousada no cálice de uma flor."
(Shakespeare)

April 07, 2017

Borboleta Morpho Azul- Metamorfose



As borboletas são profundamente simbólicas da nossa capacidade para crescer e nos transformarmos. Em grego o seu nome é “Psyque”, que também significa “alma”, “sopro”, “respiração". Adornada com um azul vibrante e metálico na parte exterior das suas asas, a Morpho azul mostra-nos a máxima beleza da própria impermanência. Na sua metamorfose todas as borboletas passam várias vezes pela morte de uma fase anterior: elas começam como lagartas que um dia se isolam na escuridão e na quietude do casulo, emergindo no momento certo -nem antes nem depois do tempo-, como as belas criaturas aladas que na verdade são. No seu voo ajudam-nos a redescobrir a graciosidade de nos elevarmos sem esforço: se algo nos estava a impedir de avançar no nosso crescimento, agora é o momento de avançar sem medo de perder a segurança e deixando algo morrer para podermos assumir o nosso ilimitado potencial partilhando a nossa capacidade criativa com o mundo. 

Elas ensinam que a vida é uma constante mutação e a mudança deve ser tão natural como respirar. Podemos aprender a avançar da melhor forma possível no nosso caminho se soubermos reconhecer em que fase do seu ciclo estamos: o ovo, a lagarta, a crisálida ou a borboleta? Sem pressas nem estagnações, cada uma destas 4 fases tem o seu paralelo nas fases de nascimento de uma ideia entre o pensamento e a sua manifestação no mundo exterior. Ser perspicaz e discernir com clareza onde nos encontramos será fundamental para um Bom Caminho. A Borboleta representa não apenas a mudança de forma mas também de perspectiva para evolução e crescimento da alma, relembrando que isso não precisa de ser algo traumático. 

As borboletas recordam-nos também as ligações entre tudo o que existe, pois as linhas invisíveis que nos unem são mais fortes do que conseguimos percepcionar sendo que um pequeno acontecimento como o bater de asas de uma borboleta pode provocar um furacão no outro lado do mundo- fenómeno a que se chamou mesmo “butterfly effect”.


Este género de borboletas recebe o nome de “Morpho” do grego μορφώ, que significa “forma”/“formosa”, um epíteto para Afrodite ou Vénus. As lamelas iridescentes de algumas delas estão apenas presentes no dorso das asas e aí a cor que produzem varia com o ângulo em que são vistas, já na parte ventral varia nos tons castanhos imitando “olhos” (ocelli), que procuram afastar os predadores quando as asas estão fechadas. Existem cerca de 80 espécies de Morpho distribuídas pela América Central e do Sul. O tamanho das suas asas é desproporcional em relação ao do corpo, podendo variar entre 7,5 e 20 cm e são territoriais gostando de viver no interior da selva mas buscando por vezes os raios de sol para se aquecer. Vivem solitariamente exceptuando a época de acasalamento, gostam de se alimentar de sumo de fruta fermentada e os adultos vivem cerca de um mês. 


As minhas memórias mais impactantes com borboletas remontam a 2001/2002 quando, ao atravessar o rio Usumacinta (fronteira entre o México e o Guatemala), o ar abafado à beira da água se mostrou repleto de borboletas amarelas que cumpriam a sua vida deitando-se em fúnebres tapetes coloridos. Nessa época cheguei também a “peregrinar” às frias montanhas de Michoacan com dois amigos que queriam ver a migração anual das borboletas Monarca, encontrando aí os pinheiros revestidos do seu laranja e preto como se adornados com uma roupa solar.


Cerca de 8 anos mais tarde, uma semana depois de assumir o amor por aquele que se tornaria o meu companheiro de vida, regressava por três meses à minha terra mexicana com o propósito de encerrar um processo de transformação profunda que se iniciara um ano antes com um acidente que me deixara 6 meses sem caminhar. Foi em pleno processo de regenerar o meu pé direito até ao osso que sintonizei os elixires de Rosa e de Glória da Manhã (Ipomea Carnea), no jardim do Martim, um amigo visionário que vivia isolado perto da zona arqueológica de Palenque. Todas as noites dormia feliz na rede de baloiço, acordando já de manhã com bandos de pássaros a banquetear-se com as bananas maduras que pendiam da cozinha aberta. À parte disso, o silêncio cheio da selva tomava conta de tudo. Um dia, enquanto pintava uma janela que o Martim me pedira, senti uma presença silenciosa no prato de fruta que havíamos deixado sobre a mesa.


Uma Borboleta Coruja, de asas consideráveis imóveis, ali estava pousada alimentando-se com os seus grandes ocelli fitando-me e ali ficou fazendo-me companhia todo o dia.
 













 Nunca a vi a voar, mas a certa altura colocou-se ao lado da pintura, imobilizando-se tempo suficiente para me permitir desenhá-la nessa mesma janela.



Estes tinham sido os grandes encontros com borboletas de que me lembrava, mas nada comparado com a magia que nos esperava quando, um ano depois (2011), voltava ao México desta vez com o meu companheiro. Desde 2000 que viajava para aquele lado do Atlântico e sempre o fizera sozinha, mas o facto de durante toda a viagem as borboletas parecerem segui-lo e querer tocar-lhe tornava tudo ainda mais especial. 

zona arqueológica de Tikal (actual Guatemala)

Apresentei-o à minha terra amada, um terreno de que cuidava (2 kms selva dentro), e estávamos já de partida quando sentimos o som quase imperceptível de umas asas azuis bordadas de negro. Uma grande Morpho Peleides atravessou o espaço entre nós como se fosse um espírito, deixando-nos siderados com a aparição- especialmente porque em tantos anos eu nunca tinha visto uma única Morpho! No dia seguinte tivemos de voltar e, tal como no dia anterior, ela surge… mas agora acompanhada de outra Morpho Peleides mais pequena e, com a beleza sublime das suas grandes asas azuis  revoluteavam as duas pelo ar numa delicada dança de acasalamento à nossa volta, que nos envolveu e deliciou. 

Para mim tinha-se manifestado pela primeira vez a doçura e embriaguez da vida em completude e, acima de tudo, eu era capaz de o reconhecer. Nabokov, que além de escritor era um coleccionador de borboletas, descreveu estas borboletas como "shimmering light-blue mirrors" e eu agora entendia-o…



Utilizando estas memórias tão presentes, sintonizei este elixir em Fevereiro último, dia de eclipse solar a 8 graus de Peixes que só em 18 anos se repetirá. Este eclipse rege o retirar dos véus que nos impedem de abraçar o infinito, movendo-nos da escravidão para a liberdade, deixando ir o que precisa partir.

Quando me dirigi para o lugar onde temos a nossa Roda da Medicina, as flores surgiam por todos os lados por entre o verde, anunciando a Primavera. Na tradição Hopi, a “Mulher Borboleta” é um espírito (katsina), que rege esta estação e que dança espalhando o renascimento pelos campos- acho que ela estava presente!  

 Coloquei então uma labradorite, cristal que me recorda as cores da Blue Morpho, perto do geode já com a água dentro e, ao meditar sentada dentro da Roda, vi uma cúpula de borboletas a formar-se sobre ela e por fim a voarem para os meus braços e cabeça. Quando comecei a tocar o tambor, uma grande Morpho azul pousou na baqueta e dirigi-a para o geode onde ela entrou na água e desapareceu quase imediatamente. As restantes borboletas senti que as incorporava no meu peito, lembrando-me o emblema dos guerreiros toltecas.




Coluna em basalto esculpida de um guerreiro Tolteca vestido para a batalha no templo da Estrela da Manhã (Vénus), em Tula, com o típico peitoral em forma de borboleta (México Central, 900 a.c.). Para os Astecas a deusa Itzpapálotl ou “borboleta de obsidiana", pois dizia-se ter facas de obsidiana na ponta das asas (provável referência ao negro da Morpho Peleides), representava o arquétipo colectivo da anciã sábia, a bruxa poderosa que recolhia a alma, o sopro vital que escapa da boca de quem está a morrer.


 A cúpula desapareceu nesse momento e escutei dizerem-me então: “inspira e expira 5 vezes”. Ao cumprir o pedido, senti a minha visão a transformar-se para tons de vermelho e azul como se fossem os olhos de uma borboleta. Ao investigar mais tarde descobri que, relacionado com a cor particular de cada espécie, a sensibilidade dos foto-receptores dos seus olhos é particular exactamente no espectro dos ultravioletas, azuis, vermelhos e amarelos.

Estranhamente não fiquei com o entusiasmo habitual ao sintonizar cada elixir, talvez por esperar que a experiência fosse ainda MAIS arrebatadora do que isto! Como se tivesse que me recordar que grandes coisas acontecem na subtilezas! No entanto, logo no dia a seguir surpreendi-me a mim mesma com um intenso desabafo com o meu companheiro, 4 dias depois teve lugar um corte fundamental de uma amizade comum que se tornava um peso e da qual tínhamos de nos libertar, as minhas palavras foram-se revelando mais autênticas e livres ainda e, a partir daí, ambos temos sentimos as nossas asas a abrirem-se em toda a sua magnitude no nosso caminho pessoal! 


Palavras-Chave: Auto-transformação, auto-conhecimento, clarividência, clareza mental, visão clara, novas etapas, liberdade, leveza, renascimento, ciclos da vida, movimento 

Planetas Associados: Mercúrio/Venús-  reunindo as capacidades de rápida mudança, de ser mensageiras e de estar em constante movimento de forma graciosa

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